A literatura é servida como produto nobre, expondo a ilustração dos autores e seus súditos, perdão, leitores. Basta ver a maneira como os rodeiam. É um círculo sagrado de adoração, numa festa que tem tudo para pertencer a uma espécie de monarquia constitucional. Não voltamos ainda ao Absolutismo, mas falta pouco. Temos vários escrivinhadores famosos, sendo adorados como bezerros de ouro, escutados com a veemência do silêncio. Não é de admirar. Já que vivemos numa ditadura ordenada pelas finanças especulativas e pela negação da soberania, já que eliminamos 1930 do nosso calendário, já que nos locupletamos numa República Velha com voto de cabresto, então só falta mesmo restaurar a monarquia.
É incrível que numa festa literária não haja transgressão. Tudo corre como num megaevento comercial. Os consumidores chegam em massa para tocar objetos de luxo, os livros caríssimos, beijar a túnica de autores consagrados e até compartilhar espaço com os emergentes, espécie de legião de príncipes valentes em busca do cálice sagrado.
*Ilustração: Reprodução do quadro "Coroação de D. Pedro I", por Jean-Baptiste Debret



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