FAGULHAS

Duras Apenas

Priscila Miraz

Li O amante há mais ou menos dois anos. Tinha ouvido falar em Duras, vi o livro no sebo e comprei. Depois de ler, voltei ao sebo e vi outros. Mas não comprei. O impacto de O amante ainda estava comigo. Aquele livro de 127 páginas tinha entrado em mim com uma força que não sabia descrever e que queria que ficasse. Que ficava, independente de minha vontade. Há poucos dias voltei a encontrar Duras. Foi quando, finalmente, consegui assistir ao famoso Hiroshima, mon amour, com direção de Alan Resnais e roteiro de Duras. Outra vez esse não-sei-que de força e dureza e melancolia. Essa memória longa puxada fio a fio, limpa. E de repente, me vi dizendo que ia falar de Duras. Mas o que falar? E mesmo com os recados de nosso editor (É pra ontem! É pra ontem!), não sabia o que escrever. E tinha muito a dizer. Foi então que, folhando um dos volumes dos Ditos e Escritos de Michel Foucault, entendi que essa dificuldade em falar dela já é o que falar dela: “Desde esta manhã, estou um pouco inquieto com a idéia de falar de Marguerite Duras. A leitura que fiz sobre ela, os filmes que vi me deixaram, sempre me deixam uma impressão muito forte. A presença da obra de Duras permanece muito intensa, por mais distantes que tenham sido minhas leituras; e eis que, no momento de falar dela, tenho a impressão de que tudo me escapa. Uma espécie de força nua diante da qual se desliza, sobre a qual as mãos não tem poder. É a presença dessa força, força móvel e uniforme, dessa presença ao mesmo tempo fugidia, é isso que me impede de falar dela, e que sem dúvida me prende a ela”. Saber de Marguerite Duras, somente lendo seus livros, assistindo seus filmes.

*

Rabeca Lá e Cá

Fabiana Miraz

À semelhança do que Gilberto Freyre declarou na década de 30, quando percorreu os territórios da África de colonização portuguesa, sobre as Ilhas de Cabo-Verde e o nordeste brasileiro, podemos acrescentar aos aspectos climáticos e geológicos análogos, o aspecto cultural em maior evidência. Na Literatura e na Música encontramos grande identificação entre os dois países. Nas letras das mornas caboverdianas e das modinhas brasileiras do século XVIII. Nas narrativas regionalistas das secas e dos mares bravios e misteriosos. Em Jorge Amado e Manuel Lopes, ao descreverem os portos, a mulher, a cachaça e o grog. Em Manuel Bandeira e Oswaldo Alcântara nas Pasárgadas, na língua portuguesa macaqueada da “Evocação do Recife” e nos exílios. Percorrendo as livrarias e lojas de música do Chiado em Lisboa, encontramos mais uma semelhança entre o arquipélago e o nordeste brasileiro: a rabeca de Antoninho Travadinha. Sua música, melancólica e alegre, o som antigo e inovador da sua rabeca, as variações expressivas e bem humoradas do compositor de “Boavista nha Terra”, fizeram com que recordássemos outro Antonio. Dos frevos coloridos de Recife. Dos movimentos da dança, no carnaval de Olinda. O Antonio Nóbrega de “Sonhei que estava em Pernambuco”.

1 comentários:

p. disse...

nossa... eu assisti o filme "o amante" baseado no livro de Duras. até então nunca nem tinha ouvida falar nela. depois que fui procurar o livro (não gosto de filmes de livros). achei simplesmente maravilhoso.


 

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