Nada disso implica que Anaximandro rejeitasse a função geradora atribuída à água por Tales, que pode ter sido seu mestre, nem que Anaxímenes, que pode ter sido seu discípulo, duvidasse que o inefável seja a origem de tudo aquilo a que damos nome, muito embora também o façamos a ele. Anaxágoras e Empédocles podem ter engendrado as primeiras teorias de unificação da história. O primeiro porque se tudo está em tudo como ele quer as substâncias diletas de seus predecessores também devem estar presentes umas nas outras. O segundo porque se a participação dos elementos varia em cada caso, mantendo-se entretanto o equilíbrio na totalidade, nenhum deles tem primazia. Essas teses pretendem fornecer uma resposta para a grave objeção parmenidiana de que se tudo é feito de uma só e mesma coisa, a diferença é impossível. A despeito da célebre oposição entre Heráclito, para quem tudo muda sempre, e Parmênides, para quem nada muda nunca, tanto a posição de um – tudo se troca em fogo e o fogo se troca em tudo – quanto a do outro – o que não é não pode vir a ser e o que é não pode deixar de ser – revelam uma intuição da lei da conservação da energia, que embora aprimore a lei da conservação da massa ainda pode ser resumida na famosa máxima de extração lavoisieriana: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. O eleata, é claro, não concordaria com essa última parte. Ao introduzir a noção de vazio, Demócrito pulverizou o ser único de Parmênides e restaurou a diversidade substituindo a das essências originárias pela das formas de seus cacos geométricos, a saber, os átomos, cuja interação dinâmica, produto de uma necessidade intrínseca de movimento, redunda, a não ser em seu próprio âmbito, na impermanência propugnada por Heráclito. Tendo arranjado todas as mudanças do universo como o rearranjo de suas partículas imutáveis, o último dos primeiros, mais exatamente contemporâneo de Sócrates, obteve uma eficiente síntese, numa espécie de coroamento dialético dos esforços de seus ancestrais intelectuais.
Para além das diferenças percebe-se portanto uma clara relação de complementaridade e subseqüente continuidade entre essas considerações em torno do arqué, o princípio constitutivo da realidade, que brotaram e se disseminaram às margens do Mediterrâneo. Todos esses livres-pensadores ou seus mestres eram originários da Jônia, diminuta região litorânea da Ásia Menor, atual Turquia, um pouco ao sul do sítio da extinta Tróia e berço de Homero. Apenas para que se tenha uma noção, além de Tales seriam naturais de Mileto Anaximandro, Anaxímenes e Leucipo, mentor de Demócrito. Alguns deles, como Xenófanes e Pitágoras, se transferiram para o sul da atual Itália, onde as sementes da Filosofia germinaram em espíritos como os de Parmênides e Empédocles. Num piscar de olhos da eternidade, o primeiro esboço de uma comunidade científica sobre a face da Terra lançou as bases para a odisséia do conhecimento nesse grão do infinito. Mas também a originalidade não nasce por geração espontânea, nem na ausência de fértil húmus. Terra e água, fogo e ar, são indispensáveis ao seu desenvolvimento. Um fato é que graças ao próspero comércio marítimo as cidades jônicas testemunhavam um intenso tráfego de opiniões nem sempre compatíveis. Nessa encruzilhada de cosmogonias, não é inimaginável que os mais perquiridores e contemplativos dentre seus cidadãos, com tempo disponível para dedicar a tais conjecturas, tenham se apercebido da relatividade de todas e cada uma delas, propondo-se o exercício de examinar o mundo como se fossem os primeiros a fazê-lo, removendo o filtro, quando não a venda, das crenças transmitidas de pai para filho desde gerações sem conta. Era natural que se perguntassem antes de mais nada de que são feitas as coisas.
Ademais, os gregos bem-nascidos tinham o hábito de viajar para absorver a sabedoria acumulada de culturas mais antigas. O Teorema de Pitágoras, ou seja, a relação cuja demonstração lhe é atribuída, já seria conhecido na Babilônia quando a visitou. Sustentam alguns que Demócrito bebeu da fonte das tradições da Índia, e considera-se certo que esteve na Pérsia. Se os egípcios desenvolveram os rudimentos da Geometria no transcurso de atividades prosaicas como a medição de terras e os aplicaram à construção de pirâmides com finalidades transcendentes, Tales os teria utilizado para determinar a altura de uma delas a partir do comprimento de sua sombra. Ao dizer que tudo está cheio de deuses, ele, que pode ter sido o primeiro a investigar a eletricidade e o magnetismo, parece sugerir que não é preciso recorrer a entidades sobrenaturais para explicar a secreta ordem e o aparente caos da natureza, já que ela por si só encerra os princípios ativos necessários ao desencadeamento de todos os fenômenos, do relâmpago até a vida. Seu aforismo sintetiza com precisão a transição do pensamento mitológico para o filosófico. O conjunto da obra lhe assegura um lugar como patrono da Física e o caracteriza como protótipo do cientista. É em todo caso notável que esses homens tenham sido capazes de presidir a mutações em sua própria genética cultural. Até então, herdava-se e transmitia-se uma explicação completa do cosmos, mas eles encararam a realidade como um problema em aberto, e o atacaram. É essa volúpia de saber, esse assalto ao desconhecido, dos quais a insaciável curiosidade de Ulisses é antepassada, como na ocasião em que se amarra ao mastro para ouvir o canto das Sereias, que os distingue, consubstanciando-os nos primeiros teorizadores, o que viria a ter as mais relevantes – e dramáticas – conseqüências práticas para a humanidade futura.



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